Marília Spinelli Jacoby Cunda (*)
“Comunidades alimentam a vida” (bell hooks)
Há pouco mais de quatro anos, no outono de 2021, enderecei à Escola Projeto (nominalmente, à direção e coordenação) uma longa “Carta de aproximação”. Francisco completaria seis anos no mês seguinte e, cheios de apreensão, dávamos início à busca pela sua escola de ensino fundamental. Nessa carta, compartilhei a nossa história familiar e a história de Francisco – os caminhos de nossa trajetória até ali, de muita aposta, amor e superação diante dos desafios de um desenvolvimento dito “atípico” e a ressignificação de nossas vidas a partir dessa marca singular.
Quantas noites, até ali, perdi o sono pensando como seria esta transição… se o acolhimento que ele (e nós) tivéramos até então em uma pequena escola de educação infantil se repetiria em um outro universo escolar que, inexoravelmente, alargaria suas fronteiras.
Poucas horas depois, a carta era respondida e nossa apreensão poderia arrefecer: sim, Francisco já tinha uma nova escola para chamar de sua! Lembro da alegria e alívio que senti pelo acolhimento que já naquela primeira resposta, escrita, nos foi transmitido. E essa impressão inaugural, hoje percebo, fundou o terreno de tranquilidade e segurança desde o qual foi possível construir esse ingresso no ensino fundamental de um modo muito bonito – não sem desafios, é claro, mas com a certeza de que haveria amparo, escuta, aposta e construção dialógica entre escola e família.
O que encontramos na Projeto tem valor inestimável: é uma escola a que Francisco pertence, no sentido radical da palavra. Onde inclusão não é apenas um nome bonito, mas uma prática, genuinamente sentida, pensada e construída em comunidade. Uma comunidade que está atenta aos desafios desses processos, à complexidade disso que chamamos por capacitismo estrutural, que convoca a todos nós em um processo reflexivo permanente sobre nossas práticas, percepções de mundo e posicionamento nas relações com e a partir da escuta de pessoas com alguma deficiência – seja física, intelectual e/ou sensorial.
Pertencer a uma comunidade, deixar-se atravessar pelas suas insígnias, enlace entre o singular e a construção de um comum: nessa delicada trama, se forja um campo um tanto mais propício ao aprender. Porque, afinal, é também preciso amor para que o desejo de conhecer se instale, encontre guarida e amparo. É por amor que nos movimentamos na vida e inventamos outros mundos possíveis. bell hooks, importante pensadora feminista, irá nos lembrar que “O amor na sala de aula estabelece uma base para o aprendizado que acolhe e empodera todo mundo”, e que “ensinar com amor” é combinar cuidado, comprometimento, respeito e confiança.
E é assim que, amando sua escola e sendo amado e querido por toda equipe, pelos amigos maravilhosos que encontrou e com os quais têm construído sólidas e significativas relações, aprender tem sido um caminho de intensas e importantes descobertas e construções. Com a coragem que é tão característica do Francisco e com a aposta permanente de toda a equipe pedagógica (aqui, gostaria de destacar o excelente trabalho desenvolvido pelo AEE – Atendimento Educacional Especializado -, e a professora Fernanda Lantz, uma parceria fundamental nesse percurso).
Chegamos à metade do quarto ano do ensino fundamental e, hoje, o coração já aperta ao pensar que em um futuro não tão distante Francisco estará concluindo sua jornada na Escola Projeto – conquanto certamente carregando a bagagem desses anos de uma formação tão potente e generosa em experiências. Um lugar onde a arte, a música, a literatura, as relações humanas e o pensamento crítico são valorizados tanto quanto o conteúdo tradicional. Meu sentimento é de gratidão e alegria por formar parte dessa comunidade escolar tão querida, pelas amizades que Francisco e nós construímos, pelos passos até aqui trilhados e pelos outros tantos que virão.
Vida longa à Escola Projeto!

(*) Psicóloga e psicanalista, servidora da UFRGS, mãe do Francisco/turma 43.
Referências:
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2020.
hooks, bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. São Paulo: Elefante, 2020.
