Dilmar Messias (*)
Neste ano, o livro As Aventuras do Avião Vermelho está marcado por datas especiais. Escrito pelo consagrado escritor gaúcho Erico Verissimo há 90 anos (1935), foi encenado pela primeira vez há 30 anos (1995), com minha adaptação e direção. Erico, sabemos, nasceu em Cruz Alta em 1905 e faleceu em Porto Alegre em 1975. Portanto, Erico nos deixou há 50 anos e se vivo, estaria completando 120 anos. Então, não haveria oportunidade melhor para lembrar esse importante autor, reverenciar a sua obra, recordar essa história que marcou gerações e reprisar o sucesso de sua versão teatral, pelos prêmios conquistados em vários festivais pelo Brasil.
A minha mãe leu para mim quando eu era pequeno As Aventuras do Avião Vermelho, que conta as peripécias de Fernandinho, menino travesso que põe a casa em polvorosa até partir para a sua fantástica viagem. Infelizmente perdi o livro, mas a história ficou gravada. Quando comecei a fazer Teatro, pensei um dia revivê-la no palco, mas não sabia como ia fazer, achava muito difícil. Erico falou certa vez que havia se inspirado nos desenhos de Disney ao criar as proezas de Fernandinho, tão cheia de detalhes, acontecimentos e lugares pitorescos. Passado muito tempo chegou às minhas mãos uma nova edição dessas aventuras e, um pouco hesitante, comecei a trabalhar em sua adaptação. Fiz os necessários ajustes e consegui juntar uma ótima equipe para me ajudar na difícil tarefa de transformar As Aventuras, num espetáculo de Teatro. Essa foi uma das mais ricas experiências da minha vida teatral.
Agora, estamos levando aos palcos As Aventuras do Avião Vermelho numa nova montagem, fraterna, uma ação entre amigos. Trabalhamos juntos, no espaço do Circo Girassol, nos dividimos nas muitas tarefas e administramos com parcimônia o prêmio da Fundação Nacional das Artes, conquistado pela relevância desse trabalho. Varamos algumas noites, como sempre, eu, a Débora, o Diego e o Tuta. Tudo foi feito com muita dedicação e esmero. Criamos com prazer e com o mais genuíno sentido do verbo. Finalmente estreamos e com aquele velho friozinho na barriga.
Sempre tive crianças em casa. O Fred, a Mari, o Gabi, o JP e a Au, maravilhoso legado de três casamentos. Com eles aprendi muitas coisas, mas principalmente que criança não é boba e que é pecado tentar enganar criança, embora ela não se engane facilmente. Aprendi que, acima de tudo, devemos ser honestos com elas. Nas brincadeiras de teatro em casa com meus Fernandinhos, o afeto sempre foi o fundamento de nossas histórias, de nossas engraçadas personagens e o fruto dessa sensível experiência eu levo para o meu trabalho. Sempre procurei ir fundo no meu Teatro dedicado à infância, tarefa que cumpro com bastante atenção e cuidado.
Minhas crianças sempre foram meu público constante, exigente, e ainda hoje são.

Pelas atribulações da vida, muitas vezes me comuniquei com elas pela boca das personagens de minhas peças e recebi respostas compensadoras. Estou muito orgulhoso das mulheres e homens que eles são.
As Aventuras do Avião Vermelho terá uma apresentação especial para a Escola Projeto no próximo dia 18 de outubro, às 11h, no Teatro Renascença, na Avenida Érico Verissimo, 307. Em breve, os ingressos estarão à venda na secretaria da escola.
Em tempo: Sempre tive uma ligação com a obra dos Verissimo, pois dirigi as divertidas comédias de Luis Fernando, Lisarb ou Multi Antes Pelo Contrário (1980) e O Marido do Doutor Pompeu (1997), que adaptei de suas crônicas. Uma em tom de Farsa e outra em tom de Comédia de Costumes. Peças que mostram seu humor crítico e inteligente, consagrando o que Bentley chamou de “espatifação das aparências”. Recebi com grande tristeza a notícia da perda deste que é um dos nossos grandes escritores.
(*) Diretor e autor teatral, pai de ex-aluno e de aluna da Projeto.
