Beth Baldi (*)
Este é o título do curso que se encerrou no último dia 5/5, com quatro encontros online sobre educação inclusiva, promovido pelo Centro de Formação da Vila/SP, com Marília Costa e Fernando Perina.
É também o título do mais recente livro do professor David Rodrigues, da Universidade de Lisboa, que esteve presente em três dos encontros, enriquecendo e prestigiando a proposta dos formadores, baseada em seus textos que expressam aprendizagens e reflexões sobre o tema (**).
Sua ideia, simples e poderosa, seria: para estarmos juntos realmente, como a vida nos coloca, é preciso cuidado e amor uns com os outros, de modo a sermos também justos, no sentido de acolher a todos, oportunizando que cada um sinta-se ouvido, compreendido e valorizado em seu modo de ser.
Assim também, e especialmente, precisa ser na escola, onde estamos para aprender juntos a viver, a cuidar, a ouvir, a educar, a compreender, a valorizar e a incluir todos, sendo justos, de modo a que todos sintam-se “dentro”, pertencendo e bem adaptados.
Nessa perspectiva, a partir do livro, o curso abordou conceitos como diversidade, equidade, inclusão e direitos (e deveres) humanos, provocando reflexões significativas a respeito das práticas que temos realizado nas escolas, em busca de que todos – professores e equipe pedagógica, direção, famílias, funcionários e alunos – possamos evoluir na aceitação às diferenças, para lidar melhor com as angústias e ansiedades que elas muitas vezes nos despertam, sem julgamentos ou preconceitos, e para construir maior equidade na forma de tratar com elas, ou seja, maior igualdade de oportunidades a todos, o que tem a ver com o exercício da justiça que tanto almejamos no sentido de superar as desigualdades.
Ou seja, todo um universo de questionamentos que não caberia em um só texto como este. Escolhi, então, umas poucas questões, mais marcantes para mim nesse sentido, para compartilhar aqui, na esperança de se constituírem em elementos que permitam reflexões também nos leitores.Uma delas é a necessidade de se pensar essa igualdade de oportunidades mais na perspectiva do que se recebe, do que a partir do que se dá, o que pode ser exemplificado pela imagem a seguir, que traz a igualdade do ponto de vista de quem propõe/do teste único – de quem dá, portanto -, faltando olhar da perspectiva do outro – de quem recebe; a situação caracteriza o que se pode chamar de “falsa dádiva”, uma vez que aquilo que está sendo dado não pode, de fato, ser recebido:

Outra questão trata da importância de se repensar, em diferentes aspectos, o modelo escolar construído até aqui: as concepções de aprendizagem que o sustentam (saindo da simples memorização de informações e buscando o desenvolvimento de competências), os lugares ou situações em que se pode aprender (sempre ampliando-os), a necessidade de desvalorização da uniformidade, adotando modelos que promovam a diversidade (adaptando o currículo ao estudante, em vez de querer encaixá-lo às exigências curriculares), e a proposta de evoluir na seleção para a inclusão, a partir da ideia de que “todos importam da mesma maneira”. Sim, esta última é uma ideia linda de dizer, mas não tão fácil de fazer, tendo em vista, de um lado, a cultura excludente e capacitista que predomina em nossa sociedade e, de outro, sua implicação de que se trata não somente de ampliar o acesso, mas também, e sobretudo, de garantir as aprendizagens, o que é complexo e demanda apoio à equipe, com trabalho cooperativo e acompanhamento regular.
Enfim, essas e outras tantas reflexões propostas no curso (e no livro) – a participação de toda a comunidade escolar como uma dimensão ética a ser garantida na educação inclusiva, a evolução da educação especial em direção à educação inclusiva e o papel dos diagnósticos nesse contexto, as alavancas para as práticas pedagógicas inclusivas etc. – funcionaram, para mim, como um chamado profundo de transformação humana, de revisão dos sentidos da educação e dos valores que sustentam as suas práticas, tendo em vista a busca de justiça social e dignidade. Chamado este que pretendo estender à equipe, provocando-a a sempre se permitir duvidar de seu saber sobre o que é bom para os alunos, abrindo espaço para ouvi-los melhor, ou ouvi-los de fato, e para poder vê-los como “companheiros de viagem”, que podem se constituir no grupo como um grande manancial de possíveis recursos e ajudas mútuas.
(*) Diretora pedagógica da Escola Projeto.
(**) A publicação do livro no Brasil é da Ed. Diálogos Embalados, SP, 2026:

