Celso Gutfreind (**)
A pergunta está no título: como estimular a leitura nas crianças? Quem a fez foi o grupo Na’amat Pioneiras e, como de hábito, eu não sabia responder. Deixem-me antes contar que tenho duas atividades profissionais: sou psicanalista e escritor (para crianças, inclusive) e as duas dão margem a pensar que eu sei responder alguma coisa.
A verdade é que não sei, e analisar e escrever reforça a minha capacidade de suportar a minha ignorância. Trato a alma para saber (o que tratarei), escrevo para saber (o que escreverei). Importa é que de uma incerteza à outra, vamos contando histórias, e outras duas me ocorrem agora. Uma é do escritor José Saramago (eu sempre achei que ele sabia), que descreveu dois momentos fundamentais na vida de uma criança. Um é quando ela começa a perguntar. Outro é quando ela desiste. A outra história é de quando a minha filha era pequena. Conversávamos sobre um problema dela e, com muita esperteza, ela tentou falar sobre um meu. Distraído, respondi que um dos meus problemas era fazer livros que não vendiam muito. – Também, com os títulos que tu escolhes… – disse ela, referindo-se a um texto que eu acabava de publicar e se chamava Narrar, ser pai, ser mãe & outros ensaios sobre a parentalidade.
Ela tinha razão, e esse também não foi best-seller. Afinal, não oferecia resposta para perguntas do tipo: Como posso ser uma boa mãe? Como posso ser um bom pai? O livro – e todos os outros que eu publiquei, independentemente do gênero – apenas propunha um momento de reflexão, de emoção, talvez. E, refletindo agora sobre a pergunta das Pioneiras, eu penso que não existe um jeito de estimular a leitura numa criança e, como disse o poeta, se não há um jeito, é porque existem vários.
Sinto que todos eles passam por um bom encontro entre pais e filhos. As primeiras histórias (as pioneiras) estão fora dos livros, na vida mesma, quando se olha, se toca e se está junto. Acolher uma criança é, talvez, o capítulo principal. Cantar para ela, contar (qualquer coisa), saber ouvir seu murmúrio, seu balbucio. Se isso funcionar razoavelmente, a criança logo se dará conta de que os livros (de papel, virtuais, pouco importa) servem para continuar contando essas boas histórias que os cuidadores contaram (e ouviram), dentro da própria vida.
Acho que estou dizendo que estimular a ler é, antes, convidar a viver. Há histórias por tudo, e uma boa experiência acompanhada levará depois a um desejo de reproduzi-la no papel (ou na tela), sozinho, com o outro por dentro.
Agora, nesse exato momento, estou me achando, pois acho que respondi a pergunta. Será que já posso fazer meu best-seller?
Tomara que sim!
Tomara que não!

(*) Texto do livro A devolução dos bichos – Crônicas, Porto Alegre/RS: Ed. AGE, 2026, págs. 129 e 130.
(**) Escritor e psicanalista, pai de ex-aluna da Projeto e colaborador frequente deste blog.
