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Provocação e meia (*)

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Provocação e meia (*)

Postado em 19 de junho de 202619 de junho de 2026 por Escola Projeto
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Rubem Penz (**)

Está no “Manual de acompanhamento infantil”, publicação cuja reedição frenética parece vir com alterações a cada nova tiragem, um capítulo importantíssimo: “Dois anos em diante, a época dos desafios”. Quem lê apenas o título não entende o alcance das questões ali debatidas. Desafio não se restringe a como os pais lidam com um ser humano a cada dia mais hábil e esperto. Na verdade, os 24 meses abrem uma etapa de conquista de poder: quem manda em quem. Ou seja, nossa autoridade começará a ser testada numa curva ascendente, ainda que com prazo para terminar: nossa morte.

É possível medir o nível de inteligência de uma criança apenas acompanhando sua destreza no tabuleiro de negociações. Os bebês crescidos mais afiados identificam uma vacilação ou uma fraqueza parental com precisão e, sem remorso, avançam suas frentes. E adultos se fragilizam com mais frequência do que se imagina… Por exemplo, falta de combinação do que pode e do que não pode entre pai e mãe – oportunidade de bronze. Insegurança ou culpa por tempo de convivência limitado – oportunidade de prata. Constante interferência de avós – oportunidade de ouro.

É preciso lembrar que, neste momento, a palavra “não” já está no top cinco das mais enunciadas. Ela é uma espécie de chave que abre o paiol. As armas são quase sempre as mesmas: desobediência, paralisação, choro, birra, chantagem emocional e fiasco em grande estilo. O uso pode ser sequencial ou, em corredores de supermercado, ir direto ao final da lista – constranger é objetivo imediato quando se tem plateia. Claro que se transformar em quem manda nem sempre se dá em litígios. As piores melhores crianças adotam técnicas de sedução.

Quando se é um pai bem passado, há uma oscilação entre estar mais para avô (complacente) e mais para escolado (impaciente). Agatha tem o condão de me encantar com suas impertinências apaixonantes. Demanda atenção dobrada: calculo que já identificou esta minha fragilidade. O mais recente caso no qual xingar foi preciso – mas afofar foi uma tentação – aconteceu noite passada. Resumo:

Chorou na madrugada fria pedindo pela mãe. Eu atendi. Acalmou-se, mas não dormiu. Chamou outra vez, então solicitando a mim. Pediu que ficasse ali com ela (deitei-me ao lado do berço). Sentava-se, levantava-se, conversava e não dormia. Eu só rogava que fechasse os olhos, ainda calmo. Até que, em ato de desafio explícito, tirou as meias dos pés e jogou ao meu lado dizendo “meia, papai”. Foi-se a serenidade. Depois de eu repor o agasalho e dar uma boa xingada, ela acabou dormindo. Depois de passada a ira, eu acabei maravilhado. Depois de tudo, resolvi escrever sobre nós.

Saberá ela que sou um homem atirado aos seus pés?

(*) Crônica do livro Aventuras e desventuras de um pai bem passado, Rubem Penz, Porto Alegre, RS, Santa Sede Editorial, 2026. Alguns exemplares do livro estão à venda na secretaria da escola.

(**) Rubem é cronista, músico e coordenador de oficinas de escrita, além de pai de ex-alunos da Projeto.

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