Bruna Meneghetti (*)
Em uma sala de primeiro ano, frases como essa que intitulam o texto são comuns e cotidianas e, para mim, parecem pura encantaria. Saídas de conversas paralelas e cochichos ao pé do ouvido dão ritmo e compasso ao dia a dia, com naturalidade e um tanto de graça.
— Profe, nessa palavra aqui, avião, usamos aquele acento, não é? O familiar…
— Familiar?
— Isso! Primo, tio… como é mesmo o nome?
…
Entre duas crianças:
— Não entendi. Não consigo fazer. Me explica de novo?
— Explico. É assim ó…
…
— Tu não ia fazer os dinossauros?
— Sim, mas eu mudei de ideia.
…
— Ele conseguiu!! Tu viu?
— Eu vi!!
…
— Hoje é dia de troca de faixa no taekwondo. – diz a primeira criança.
— Vamos colocar na rotina. – a segunda responde.
E então escrevem “troca de faichá”, enquanto outras crianças se aproximam para ver o que estava acontecendo.
— Faichá? Acho que é faicha.
E me olham, como quem pergunta. Eu assisto, convido com o olhar a continuarem pensando. Não respondo ainda, mas leio em voz alta enquanto me afasto: faichá. E escuto:
— Não é faichá, é faicha, sem acento.
…




Não existe, para mim, a possibilidade de responder essas perguntas, de ouvir esses diálogos sem um sorriso no rosto e uma crença de que muita coisa boa vem pela frente. Na escola, mas também no futuro. São mudanças de ideia, construções de escrita, relações e percepções do outro que demonstram questionamentos e descobertas que acontecem nesse espaço social escolar de convivência e estreitamento de laços. Muitas vezes, imersa nessas sutilezas, eu sou só a espectadora, estou ali como quem aprende mais do que ensina, registrando nas páginas finais do meu caderno essas passagens que me emocionam.

Mas é preciso estar atenta e forte, como diz a música, para, além de assistir, com curiosidade, percebendo o que e como pensam, promover os caminhos que trilham os que se alfabetizam. E eles vão subindo, descendo, inventando degraus e fazendo questão de dar um empurrão ou puxar quem ainda está um ou dois andares mais abaixo. E viver tudo isso, me faz acreditar: é um espaço privilegiado este em que me encontro como alfabetizadora, que tem sempre um novo amanhã!
(*) Professora do 1º ano do ensino fundamental da Projeto, com licenciatura plena em Pedagogia pela UFRGS.
