Mitti Mendonça (*)
Receber o convite para participar do Projeto Artistas Convidados(as) foi uma grande alegria. Sou muito grata pelo zelo, pela sensibilidade e pela atenção dos professores da Escola Projeto ao apresentarem minha produção às turmas, criando caminhos para aproximar as crianças das minhas obras, das técnicas que fazem parte da minha prática e das questões que atravessam minha pesquisa.
O bordado ocupa um lugar central na minha trajetória. Essa prática percorre há três gerações a minha linha familiar e chegou até mim pelas mãos de mulheres da minha família. Para mim, bordar é muito mais do que uma técnica: é tempo, bem-estar, autoestima, transmissão e memória. É reconhecer saberes que atravessaram gerações e valorizar quem veio antes.



Como mulher negra e artista negra, minha pesquisa também parte da historiografia afro-brasileira, das memórias familiares e coletivas e da busca por trazer à superfície histórias que tantas vezes foram apagadas ou silenciadas. Poder ver meu trabalho sendo estudado na escola e depois conversar com as crianças sobre essas questões foi muito significativo. Minha presença também carrega representatividade: estar ali como artista, pesquisadora e mulher negra pode abrir possibilidades para que outras crianças negras se reconheçam e imaginem diferentes caminhos para suas próprias trajetórias. Ao mesmo tempo, foi uma oportunidade de aproximar todas as crianças de outras narrativas e de ampliar os modos de olhar para a história, reconhecendo a presença e a contribuição das populações negras na construção da nossa sociedade.
A escola também tem um lugar muito especial em minha própria história. Minha mãe foi professora, e reconheço a potência desse espaço na construção de nossas identidades, autoestima, autoconfiança e autoamor. A arte pode abrir caminhos para que cada criança reconheça e valorize sua própria história e pluralidade, e perceba que suas memórias, seus familiares e seus saberes também são matéria para a criação. E foi incrível ver como cada turma encontrou uma maneira própria de se aproximar da minha produção. As obras e técnicas foram pontos de partida para experimentações com bordado em fotografia, ponto cruz, bordados sobre tela, customização de roupas, texturas, paetês e lantejoulas, além das relações com a palavra e diferentes materiais.
Depois desse processo, recebi as crianças na minha exposição Deixe a magia de suas ancestrais escorrer pela potência de suas mãos, em exibição até 04.10.2026, no Multipalco Eva Sopher, e também no meu ateliê. Esses encontros foram momentos de troca e escuta: realizamos rodas de conversa, nas quais pude apresentar as obras, compartilhar um pouco da minha trajetória e dos processos que atravessam minha pesquisa, ouvir as percepções das crianças e responder às suas perguntas. Também experimentamos materiais de desenho e bordado, criando um espaço para que cada uma pudesse se aproximar do fazer artístico de maneira livre e curiosa.
Na Escola Projeto, durante a mostra final, fiquei encantada ao encontrar reunidos os trabalhos produzidos pelas turmas. Ver tantas interpretações, experimentações e histórias materializadas a partir do meu trabalho foi muito emocionante. Acompanhar esse resultado foi como ver todos esses fios se encontrarem: a didática e a dedicação dos professores, os olhares das crianças, as memórias das famílias e as referências presentes na minha trajetória entrelaçadas em uma criação coletiva.












As fotografias de família, os mapas e as cartografias afetivas trouxeram histórias de avós, mães e outros familiares. A partir desses trabalhos, percebi novamente como o bordado pode ser um caminho para conversar, lembrar, unir e escutar. Deixar o coração quentinho.
No fim, talvez seja isso que o bordado me ensina continuamente: nenhum fio existe sozinho. Ele se conecta a outros fios, cria caminhos, nós, encontros e curvas. Na escola, encontrei muitas mãos potentes, dispostas a experimentar esses caminhos. E foi bonito perceber que, entre linhas, fotografias, histórias e afetos, fomos construindo juntos uma trama que possivelmente continuará muito além do projeto, em casa, nas mãos e nas memórias.
(*) Artista visual, cuja obra foi estudada neste ano de 2026 pelas turmas da Projeto, ao longo do 2o trimestre letivo.
