Cristine Zancani (*)
Passei algumas semanas imersa no acervo literário da biblioteca da escola Projeto. Essa imersão foi feita na sala que reúne as obras destinadas às crianças maiores. Mexer nos livros foi mexer em muitas histórias – no sentido mais literal que isso pode ter, mas também foi gesto que colheu outros sentidos.
Abrir um livro é abrir o tempo de produção dele. É ver a concepção de literatura e a visão de infância que ele carrega, observar as características da ilustração, as temáticas em voga, o contexto histórico da escrita. Observar um acervo é ver as mudanças pelas quais a produção de livros para infância passou/passa. É ver como a qualidade e o cuidado editorial foram crescendo – como transformaram certas leituras em experiências de fruição artística. Além de tudo isso, que já seria muito, mexer nos livros de uma biblioteca escolar conta sobre o espaço da leitura na escola, sobre as preferências dos leitores, sobre as marcas de leitura que um livro, que sai muitas vezes da estante, tem.
Na escola Projeto, a leitura tem um espaço central. O trabalho com a leitura é feito a partir de uma base teórica que leva em conta as especificidades da literatura infantojuvenil. Um trabalho cujos pactos vão sendo refeitos a partir das mudanças sociais e culturais, mas também a partir do cotidiano escolar: seus erros e acertos. Lembrando que dentro da própria concepção de educação da escola, erro não é fim, mas início de caminho. Escola viva é escola em processo de construção e reconstrução. Neste momento, a escola olha para a biblioteca e é prazer imenso contribuir com esse olhar.
Há muitos anos atrás, cheguei na Projeto como mãe. Vinda de anos de pesquisa em literatura infantil e formação de leitores, sabia que a Projeto tinha inaugurado uma forma de trabalho com os livros que era única. Quando visitei a escola (na antiga sede na frente da Redenção), vi que a biblioteca era o centro da casa, que era o coração da escola. A biblioteca fazia fronteira com o refeitório e o pátio – e tinha tanta entrelinha nessa localização dos livros entre a diversão e o alimento, que não tive dúvida alguma em dizer sim para a escola.
Reencontrei essa metáfora e muitas outras entrelinhas nos dias que passei dentro da biblioteca. Folhear os livros foi ver o tempo. Sobretudo, o tempo que todas as crianças da escola passam dentro daquele espaço. O acervo narra os toques, as páginas folheadas, as sucessivas leituras, as restaurações. O acervo tem passado e tem presente. Tem livros que estão há décadas e tem os que chegaram mês passado. Tem a história da escola, dos alunos e da leitura. Tem o que gente como eu, que trabalha com formação de leitores e com literatura, mais sonha em ver: um acervo que voa fora da estante e que tem marca de mão, marca de página virada, marca de livro que encontra muitos leitores diariamente. Quando eu olho essas marcas, penso nas que eu não vejo: nas que ficam nos leitores, nas que ficam a partir do tempo diário de contato com os livros. Quando olho essas marcas, sei que elas são só uma parte da história que contam. Sei que elas se multiplicam. Sei que elas seguem em curso enquanto a biblioteca pulsar o coração da escola.
(*) Mãe de ex-aluna, Doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS e uma das coordenadoras da oficina “Mala.monstro/Viagens literárias”, que acontece na Projeto, semanalmente, no contraturno.


