Roberta Rossi Grudtner (*)
A viagem pedagógica às Missões é um daqueles marcos que ficam gravados para sempre na memória das nossas crianças. Como mãe do Rodrigo, aluno do 5º ano da Escola Projeto, acompanhar essa jornada foi uma experiência profundamente emocionante, repleta de superações e de descobertas.

A Expectativa e o Despertar
Embora o ônibus tenha partido na madrugada de 13 de julho, a viagem começou muito antes. Desde o início do ano letivo, os alunos vinham trabalhando dentro e fora de sala de aula as perspectivas dessa atividade tão esperada. O foco era, por meio da cooperação, vivenciar in loco e compreender a trajetória do Rio Grande do Sul (tão significativa para a nossa identidade como povo gaúcho) com um olhar sensível, aprofundado e de humildade cultural sobre os povos originários.
A bagagem teórica e a curiosidade acumuladas ao longo dos meses pavimentaram o caminho para o que veríamos na prática: o florescer da maturidade cognitiva e do aprendizado profundo.
E então, o grande dia chegou.
Às 5h15 da manhã, o movimento de preparação já tomava conta do grupo. Às 5h30, sob o céu ainda escuro, o ônibus partia. Sabíamos que a distância impunha um desafio real: manter a equanimidade, a paciência e a harmonia, necessitando da continência emocional de cada integrante da turma durante tantas horas de estrada.
O trajeto revelou-se um espetáculo à parte. Foi encantador observar como lidaram com o tempo de forma suave. O convívio foi marcado pelo compartilhamento genuíno da presença uns dos outros, em uma atmosfera completamente segura, cuidadosa e acolhedora. Conversaram, cochilaram, divertiram-se e ampararam-se mutuamente, demonstrando uma afabilidade incrível.
Contemplação do Caminho e a Chegada
À medida que São Miguel das Missões se aproximava, a paisagem do nosso estado se transformava. Através das janelas, contemplavam a imensidão dourada das florações de canola e o verde dos campos de aveia. Ao cruzarem o pórtico da cidade, ficou a promessa animadora da parada que fariam ali no dia seguinte.
Chegando ao hotel, o entusiasmo extravasava e tomava conta do ambiente ao ver a reação da Turma 52 diante da estrutura do local: os campos de futebol, a piscina ao ar livre, o espaço de convivência e a natureza abundante. Naquele momento, vendo o sorriso estampado no rosto de cada estudante, percebi que se sentiam plenamente realizados. A viagem de ida, com todos os seus desafios, fora um êxito absoluto.
O Encontro com o Passado: Emoção nas Reduções
O ponto alto, contudo, estava reservado para a visita às Reduções. Ao pisarmos naquele solo sagrado e de tanta densidade histórica, o que se viu foi um misto de respeito e absoluto engajamento. Não havia dispersão; havia conexão.
A Turma 52 estudava com empenho. Estavam compenetrados, atentos, demonstrando um imenso respeito mútuo. Cada criança concentrada, com sua prancheta e lápis em mãos, fazia anotações cuidadosas sobre as esculturas talhadas em madeira, as obras do museu e os detalhes das ruínas de São Miguel.
Através das reflexões compartilhadas e da construção ativa de saberes, o trabalho especializado da equipe de professoras, guias e educandos cumpriu sua missão: ampliar a análise reflexiva em sua mais pura essência. Não estavam apenas visitando uma região; estavam dialogando com a memória daquele povo, valorizando o legado de quem ali viveu e materializando tudo o que estudaram até aqui.
Após uma pausa para o lanche, momentos de descontração no hotel e a preparação adequada (com camadas extras de roupas, almofadas e mantas para enfrentar o frio que se anunciava após o pôr do sol), todos se prontificaram para a vivência a céu aberto.
Som e Luz

À noite, retornaram às ruínas para assistir ao espetáculo Som e Luz. “Fantástico”, “magnífico” e “inspirador” são palavras que ainda parecem insuficientes perto do sentimento despertado em cada estudante.
O termômetro marcava 7°C entre 20h e 21h. O vento frio se fazia presente, mas a conexão das crianças com a natureza, a voz da terra e o céu refletia um desejo de aprender tão genuíno que as baixas temperaturas pareciam não importar. Ver essa turma contemplando aquela narrativa sob as estrelas revelou uma maturidade, um comprometimento e um foco extraordinários. Honraram cada combinado feito com as professoras. O resultado? Total liberdade. Havia um respeito quase palpável pelo silêncio e pela memória ali representada.
Após o espetáculo memorável, retornaram ao hotel para um delicioso jantar, seguido de um banho revigorante, do carinhoso contato telefônico com a família e do merecido descanso. As crianças adormeceram preenchidas por uma atmosfera única.
Anti-monumento e Pórtico
No dia seguinte, após o café da manhã com receitas da culinária missioneira, vivenciaram momentos ímpares ao visitar o Anti-monumento e o Pórtico da cidade de São Miguel das Missões. Foram experiências fundamentais para refletirem sobre a complexidade do processo histórico que vinham analisando.
Foi diante do Anti-monumento que o exercício do pensamento crítico atingiu seu ponto ápice. Perante uma obra que propõe desconstruir narrativas prontas e questionar significados, as crianças mergulharam em reflexão. Em um momento de pura perspicácia e espontaneidade, um dos estudantes comentou: “Vou tirar foto desse anti-monumento de cabeça para baixo!”. Um insight brilhante que traduziu exatamente a capacidade de olhar por novos ângulos e enxergar sob múltiplos prismas, desenvolvendo a autonomia do pensamento.
No Pórtico, a observação de cada escultura trouxe reflexões riquíssimas, permitindo compreender a presença e o simbolismo de figuras marcantes da região. Esse exercício de empatia remete diretamente ao poderoso brado de resistência que ecoa naquelas terras: “Co yvy oguerekó yara” (Esta terra já tem dono) A frase, atribuída ao líder missioneiro Sepé Tiaraju durante a Guerra Guaranítica, sintetiza a defesa da diversidade, da cultura e do território dos povos originários. Para as crianças, foi um exercício profundo de reflexão sobre o verdadeiro significado de liberdade. Compreenderam que a história das Missões não é feita apenas de pedras e ruínas, mas de lutas humanas reais pela dignidade e pelo direito ao próprio chão. Enxergar o passado por essa lente humaniza o conhecimento e transforma o fato histórico em lição de cidadania.
A Neurociência por trás do Cuidado: O Aprendizado em Solo Seguro
Atenta aos processos de neurodesenvolvimento e à saúde mental integral, ficou nítido para mim o quanto a proposta pedagógica da Escola Projeto é solidamente embasada no funcionamento do cérebro e na neurociência da aprendizagem.
Sabemos que o cérebro humano só se abre para a curiosidade e para o aprendizado profundo quando se sente protegido. O desenvolvimento cognitivo necessita de oportunidade e de um ambiente psicologicamente seguro. Quando a escola constrói um espaço de acolhimento, afeto e confiança, ela reduz as barreiras invisíveis do estresse e da ansiedade, permitindo que as funções cognitivas superiores floresçam.
Ver estudantes lidarem com o frio intenso, a distância e a densidade dos acontecimentos históricos de forma tão leve e madura é o resultado direto de mentes que se sentem seguras para explorar, errar, colaborar e evoluir. É propiciar a neuroplasticidade assegurando o pleno desenvolvimento da pessoa humana.
Pertencimento: Dimensão Essencial da Educação Integral
Mais do que um ambiente seguro, o que testemunhei nessa viagem foi a força do pertencimento. Para crianças e adolescentes, sentir que fazem parte de um grupo, que pertencem a uma coletividade, é o combustível que ativa a busca pelo saber.
O pertencimento celebra a diversidade: ele não exige que todos sejam iguais, mas garante que cada um, com sua singularidade, tenha um lugar legítimo de fala e de existência. Quando esse vínculo se estabelece, a construção do conhecimento flui de maneira natural, profunda e significativa.
Esse pertencimento vivenciado no dia a dia da Escola Projeto ecoou de forma harmônica ao encontrarem a história. Compreender a resistência dos povos originários é, no fundo, entender a busca histórica pelo direito de existir em sua própria cultura e de aprender exercendo a verdadeira liberdade.
E sentados unidos sob o vento frio e a beleza monumental do espetáculo Som e Luz nas ruínas, a história se tornou viva, sentida na pele e partilhada no silêncio atento do grupo. Ali, integrados à natureza e entre si, compreenderam que, através da humildade cultural, crescemos e aprendemos juntos. É esse o saber que a Projeto preconiza: um conhecimento que se sente, que se compartilha e que transforma.
Retorno com o coração ainda mais repleto de admiração pela Turma 52, imensa gratidão à coordenadora Graça e à professora Luísa pelo conduzir tão impecável e sensível, e um carinho especial à Samantha, mãe sorteada para auxiliar a equipe com as alunas e os alunos. Meu reconhecimento também ao Franco, ao Luciano e à Cíntia, que, assim como eu, estiveram presentes acompanhando seus filhos nessa jornada inesquecível. Vivenciar esse processo reforça com clareza o valor da parceria entre família e escola, mostrando que a educação de excelência não apenas ensina conteúdos, mas marca trajetórias, constrói memórias afetuosas e prepara cidadãs e cidadãos conscientes de seu papel no mundo. À Escola Projeto, agradeço profundamente por cultivar um espaço onde pertencer e aprender andam sempre de mãos dadas.
(*) Mãe do aluno Rodrigo, da turma 52, 5º ano/2026, Escola Projeto.




