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Era uma voz: ler em grupo na mala.monstro

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Era uma voz: ler em grupo na mala.monstro

Postado em 23 de abril de 202624 de abril de 2026 por Escola Projeto
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Cristine Zancani (*)
Texto dedicado à Fernanda Lantz

Junto com a Fernanda Lantz, conduzo as Viagens Literárias da mala.monstro. A oficina acaba de fazer cinco anos, mas ela começou a ser sonhada quando fizemos um trabalho para a editora Piu. Uma parte desse trabalho, consistia em desenvolver atividades a partir da leitura de obras literárias para crianças e jovens, em um guia destinado para professoras. Juntas, a gente voava longe nas propostas. Juntas, a gente imaginava modos do livro ampliar os sentidos e o sentir de quem lia. Quando concluímos a tarefa, pensamos: E se? E se a gente criasse uma oficina para ver/viver na prática o que idealizamos em teoria? Sorte que não ficamos só no sonho. As viagens literárias da mala.monstro tiveram início a partir dessa pergunta e o resultado delas segue resultando.  Como consequência, sua pergunta original vai ampliando possibilidades de resposta.

A primeira mala.monstro (cheia de marcas deixadas pelas crianças) e a nova mala vermelha.

Manoel de Barros escreveu, de forma muito mais bonita do que vou repetir aqui, que a importância das coisas não se mede com fita métrica, mas pelo encantamento produzido na gente. Não só concordo, como acho que a parte menos mensurável, mas com certeza mais importante dos nossos resultados, está no cotidiano da oficina. A partir dessa ideia, quero contar algo muito grande que aconteceu em mim recentemente: mudei o olhar sobre a mala.monstro. Olhar de outra forma para algo que está em curso há cinco anos é sinal de que tenho aprendido tanto quanto ensino, ao ser uma das pessoas que mediam nossas viagens. Já tive em mente que nosso objetivo era formar ou reconquistar leitoras/leitores – o que faz muito sentido em tempos em que leitura – mas também, a concentração – perdem espaço. A questão é que, quando a gente se orienta por um grande objetivo, a gente tira o foco dos ganhos diários do processo. No meu caso, esse problema era ainda maior, eu não estava olhando devidamente para as particularidades do que é o diferencial no nosso cotidiano: a leitura em voz alta, partilhada com um grupo. 

A mala vermelha ganhando marcas e histórias para contar.

A leitura em voz alta é encantatória. É um modo afetivo e efetivo de conquistar leitores, uma vez que a leitura bem articulada de uma obra (que respeita sua pronúncia, seu ritmo, sua pontuação e sua intencionalidade de tom) já favorece a aproximação entre texto e leitores/ouvintes. A leitura em voz alta ressalta a sonoridade das palavras – aspecto que é fundamental na construção de um texto literário para crianças. Aliás, os textos de literatura infanto-juvenil têm uma abertura para a oralidade. Afonso Cruz, escritor português, afirma que o Era uma vez de nossos contatos afetivos com a leitura poderia ser traduzido por Era uma voz. Na mala.monstro, somos essa voz que dá voz para obras literárias. Somos esse gesto de carinho de uma leitura que compartilha histórias. Gesto que pode e deve ser repetido com públicos de todas as idades.

Antes da leitura, a curiosidade pelo livro lido é estimulada. Aqui, frases do livro Antes de cortar uma árvore, de Adriana Papini, foram espalhadas pelas árvores da escola. Intrigadas, as crianças inventavam contextos e significados e tentavam imaginar o título do livro.

Antes da leitura, a curiosidade pelo livro lido é estimulada. Aqui, frases do livro Antes de cortar uma árvore, de Adriana Papini, foram espalhadas pelas árvores da escola. Intrigadas, as crianças inventavam contextos e significados e tentavam imaginar o título do livro.

Quando o gesto de afeto da leitura compartilhada se dirige a um grupo, tal fato altera completamente o alcance e o significado da leitura e do que foi lido. Quando lemos individualmente, emprestamos nossa visão de mundo e nossos sentimentos para dar sentido para textos e imagens. Em grupo, os sentidos da obra se multiplicam, pois partem de muitos olhares. No diálogo sobre o que foi lido, vamos fazendo indagações que levem as crianças a relacionar as leituras com suas experiências, vivências, observações. Todo mundo vai deixando marcas de sua subjetividade na interpretação coletiva que é construída. O grupo vai se conhecendo profundamente, exercitando fala, mas também escuta ativa. Aprendendo a ouvir com atenção a contribuição única dos demais participantes. Costurando cada nova interpretação na sua e assim, repensando a obra, repensando a si e ao mundo. É frequente que as crianças cheguem a lugares que a gente sequer imaginou. A gente vai junto.

Todo esse processo de estímulo de leitura de entrelinha é uma vivência contínua da atitude leitora. Esse exercício constante de procurar outros sentidos, de interpretar em profundidade, de ouvir, de dialogar, de criar a partir do que foi lido, modifica quem somos. A atitude leitora que temos alimentado e desenvolvido a cada encontro não será utilizada somente na leitura de livros. Ela tem potencial de virar um modo de estar na vida: buscando a entrelinha de si, do outro, de acontecimentos, de notícias, de imagens, de filmes… Lendo a vida não de qualquer forma: mas com a ótica empática de quem já foi convidado a refletir sobre obras literárias diversas e, a partir delas e de um grupo de leitura, viveu pontos de vista/de vida variados. É no cotidiano que a leitura em grupo tem transformado nosso olhar não só para os livros, mas para a leitura de mundo. Com métrica de encanto e enxergando tudo de outra forma – inclusive a própria oficina – posso garantir que tem sido imenso.

Um pós-leitura onde foi explorada a ideia de bordados e de avessos.

(*) Cristine Zancani é Doutora em Teoria da Literatura. Apaixonada por mediação de leitura e formação de leitores. Transformada pelas viagens literárias da mala.monstro. Mãe da Clara (ex-aluna da Escola Projeto).

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