Larissa Richter (*)
Na Escola Projeto, realizamos com as turmas do fundamental a Leitura Individualizada. Em uma das modalidades desse formato, toda a turma lê a mesma obra em casa e, algum tempo depois, a retomamos na sala de aula. É um momento de compartilhar interpretações, levantar hipóteses e perceber que uma mesma história pode despertar diferentes olhares. Como professora, sempre chego a esse encontro curiosa para descobrir por onde aquele livro passou em cada criança.
Neste mês de junho, lemos O nome do moço (**), de Márcia Leite, com ilustrações de Bruna Lubambo, uma obra que “apresenta, pela perspectiva de uma menina, o encontro com um homem em situação de rua e convida o leitor a refletir sobre temas como dignidade, invisibilidade social e humanidade, sem recorrer a respostas prontas.”
Antes mesmo de iniciarmos a conversa, uma criança aproximou-se de mim e disse, quase em segredo:
– Profe, eu chorei lendo esse livro. Ele me emocionou.
Sorri e respondi:
– Eu também fiquei muito tocada pela história.
Durante a retomada, surgiram diferentes percepções. Alguns relacionaram a narrativa a situações que já haviam observado por Porto Alegre. Outros fizeram perguntas sobre por que algumas pessoas vivem nas ruas. Houve quem destacasse as ilustrações, quem se identificasse com a personagem e quem simplesmente dissesse que gostou da história.
Ao ouvir a turma, mais uma vez se confirmou aquilo que sabemos, mas que, às vezes, temos certa resistência em aceitar: um mesmo texto pode dar origem a muitas interpretações. Algumas respostas surpreendem, outras confirmam expectativas e há aquelas que apenas mostram que a história passou de um jeito diferente por cada leitor e leitora.
Nestes tempos em que tantas experiências são rápidas e superficiais, dedicar tempo para ler, conversar e escutar diferentes interpretações também é uma escolha pedagógica. Livros como O nome do moço mostram que a literatura pode abrir espaço para abordar temas complexos desde a infância, com sensibilidade e respeito, contribuindo para a formação de leitores(as) atentos(as) ao mundo e às pessoas que o habitam.
Ao final do encontro, ficou uma certeza: algumas histórias terminam na última página; outras continuam nas perguntas, nas conversas e nos novos modos de olhar para aquilo que, muitas vezes, passa despercebido no cotidiano.
(*) Professora da Escola Projeto há 10 anos, este ano com uma turma de 1º ano; graduada em Pedagogia, pela UFRGS, e pós-graduada em Estudos Culturais em Educação e em Alfabetização e Letramento.
(**) Editora Joaquina, São Paulo, 2025; Prêmio: Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano da CRESCER 2026.
