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Projeto Artistas Convidados(as): um recorte da vivência e do sentir de duas professoras

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Projeto Artistas Convidados(as): um recorte da vivência e do sentir de duas professoras

Postado em 17 de julho de 202617 de julho de 2026 por Escola Projeto
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Jaqueline Pieretti e Laura Becker Porciúncula (*)

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.”

Manoel de Barros (1)

Estas linhas narram um encontro entre duas professoras, cada uma com seu fazer e com sua subjetividade. Narram o encontro com as crianças das duas turmas de terceiro ano em 2026 e contam sobre o encontro de todas com a Arte, através da literatura, das artes plásticas e da música. 

Entre tantos estudos que fazem parte do currículo escolar e que marcam o nosso trabalho como professoras, escolhemos contar sobre nossa vivência com o Projeto “Artistas Convidados(as)”. A Escola Projeto propõe um contato imersivo com as obras de pelo menos três artistas ao longo do ano. Esse estudo é feito através de um mergulho que envolve toda escola: no primeiro trimestre nos envolvemos com a vida e obra de um(a) escritor(a); no segundo trimestre de um(a) artista visual e no terceiro trimestre de um(a) compositor(a) ou grupo musical. Todos os estudos começam através de um encontro para equipe pedagógica e famílias da escola e finaliza com o encontro das próprias crianças com os(as) artistas. 

Começamos este ano com o estudo da obra da escritora Chris Dias, que se declara uma “acordadora de histórias”. Nos encantou a artesania com a qual Chris conta histórias com criatividade e elementos da realidade. Entre os livros lidos e explorados com nossas turmas, um deles chamou especial atenção:Instruções para construir uma flor (2). Ele conta a história de como uma “Casa Flor” foi construída. Essa casa existe, fica na região de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, e foi construída ao longo de 62 anos por Gabriel Joaquim dos Santos, que coletava cacos de vidro, cerâmicas e outros achados para embelezar e colorir o seu lar. O 3º ano também estava estudando a técnica de Mosaico e fez muito sentido pensar nessa história para compreender a beleza dessa arte, já que o personagem principal narra em primeira pessoa os detalhes da criação da casa, chamando de “coisinha-caco” cada pedacinho de afeto encontrado no caminho e levado para compor paredes, portas, janelas e muitas outras partes da casa. 

As duas turmas, por suas diferenças, trilharam caminhos distintos, encontrando diversos sentidos e ampliando a riqueza de leituras possíveis. Enquanto a turma 32 pensou em criar seu próprio Jardim dos Caquinhos, a 33 escolheu compor Casinhas-caco, com o que fazia sentido para cada um(a). Ao longo da leitura e das conversas, destacamos algumas citações do livro e duas delas viraram mosaicos produzidos em conjunto. As frases escolhidas pelas crianças foram: “Basta vontade e um olhar queredor” e “É tudo caquinho transformado em beleza”. Em algum momento do caminho, percebemos, enquanto professoras, a beleza desse trabalho construído coletivamente, com muitas coisinhas-caco e olhares queredores. E aqui também encontramos uma das potências desse estudo: quando a arte invade a escola, a transformação é de todas e todos que ocupam esse espaço. Percebemos que esse trabalho também nos ajudou a juntar nossos caquinhos, a transformá-los em beleza.  

Ao chegarmos no 2º trimestre, encontramos a artista Mitti Mendonça e a poética com que ela conta histórias através das linhas, tecidos e bordados. Fomos convidadas, mais uma vez, a nos emaranharmos na vida e obra de uma artista contemporânea. Nos sensibilizamos especialmente por uma instalação intitulada “A Fenda” (3). Em vais e vens de conversas entre professoras, refletimos sobre esse título. O que seria a fenda? De que serve uma fenda? É um espaço a ser preenchido? As reflexões que surgiram em equipe, se transformaram em perguntas a serem exploradas com as turmas e, ao longo do trabalho, percebemos as crianças também brincando com as ideias que a obra fazia surgir. Era como se mergulhassem naquilo que a artista nos apresentava, descobrindo, em cada conversa, novas possibilidades de olhar. As palavras se emaranhavam, ganhavam outros sentidos e voltavam transformadas. Novas perguntas surgiram, novas reflexões também. A fenda já não era apenas uma abertura, podia ser um caminho, uma passagem, uma pergunta, uma memória. 

Nesse percurso, também nos aproximamos das frases “Entre Tempos” e “A palavra é um feitiço”, presentes no bordado de grandes dimensões da obra “A Fenda”.  Elas abriram novos caminhos de conversa e nos surpreenderam pela riqueza das reflexões das crianças sobre o poder das palavras. O que pode uma palavra? Ela aproxima ou afasta? Acolhe ou machuca? Guarda lembranças? Inventa futuros? Lança feitiços?

Ao escutarmos suas ideias, percebemos que as crianças não refletiam apenas sobre as palavras, mas também sobre si mesmas e sobre o outro. Cada conversa tornava-se um espaço de reconhecimento, em que podiam compartilhar experiências, rever pensamentos, acolher diferenças e descobrir outras formas de se relacionar. Essa vivência veio ao encontro do processo, construído continuamente pelo nosso trabalho de socialização com as turmas, no qual cada criança amplia o olhar sobre si, sobre o outro e as relações que se constroem na escola. E aqui encontramos mais um dos muitos “feitiços” da arte: não buscar uma resposta definitiva, única, inaugurar perguntas, encontrar sentidos, múltiplas possibilidades de olhar e ser no mundo.

Há nas crianças uma disponibilidade para ir além do evidente, para sustentar a curiosidade sem a necessidade de chegar rapidamente a uma conclusão. Frequentemente planejamos um percurso, mas os encontros com a arte nos conduzem a lugares que não poderíamos antecipar. As propostas ganham outros contornos, as perguntas deslocam o caminho e o trabalho passa a ser construído também a partir daquilo que as crianças inventam, percebem e nos ensinam a ver. 

Como professoras, seguimos aprendendo e nos transformando com esse encontro potente entre a Arte, a Educação e a Infância. Encontro que abre para a escuta, para mais encontros e para o fluxo de diferentes modos de pensar, possibilitando que as crianças ampliem seu repertório de experiências e produzam sentidos coletivamente. Assim como uma costura que se fortalece ponto a ponto, esse processo é tecido nas conversas, nas partilhas e nas descobertas, revelando que aprender também é deixar-se afetar pelo outro e pelos muitos caminhos que uma obra de arte é capaz de abrir.

Dentro de um tempo em que, cada vez mais, se busca instrumentalizar os indivíduos, aqui encontramos espaço pedagógico para explorar os vazios e as brechas do sentir. O que seria mais rico para a educação contemporânea do que essa imersão dentro do simbólico, do subjetivo e do experiencial? Especialmente se pensamos nas crianças que vivem tempos em que a informação chega a partir de um toque, em milésimos de segundos. Vivemos uma pedagogia que, além do estético, explora o estésico – a sensibilidade de si em relação ao mundo exterior, o encantamento, o que não se explica. No avesso da estesia, está a anestesia, a impossibilidade de sentir e experienciar. O projeto “Artistas convidados(as)”, ao contrário do anestesiar, convoca à vida que pulsa e cria dentro da escola. E por isso torcemos para que ele expanda suas tramas para fora da escola. Recebemos com alegria a possibilidade de que esse trabalho seja multiplicado e chegue em outros territórios/vidas da nossa cidade, reafirmando a frase de Larrosa (4) – “O princípio da pedagogia é que a vida vale a pena” – e alinhando nossa certeza sobre o poder social e transformador da Educação.

Com esse desejo, terminamos estas linhas, enquanto seguimos imersas na trama da Mitti Mendonça, escrevendo lembretes pros nossos “eus” do futuro e esperando nossos caminhos se encontrarem com a melodia da Dingo (5), para que os novos frutos nasçam.

(*) Professoras do 3º ano da Escola Projeto neste ano de 2026.
(1) BARROS, M. de. (2009). Livro sobre nada. (15ª ed.) Record.
(2) DIAS, Chris. Instruções para construir uma flor. Ilustrações de Semíramis Paterno. SP: Cortez, 2012.
(3) MENDONÇA, Mitti. A Fenda. 2021. instalação (bordado e técnicas mistas). Obra permanente integrante do Projeto Pública. Localizada no jardim do Instituto Cultural Remanso, Porto Alegre.
(4) BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20–28, jan./abr. 2002. DOI: 10.1590/S1413-24782002000100003.
(5) DINGO é o nome da banda a ser estudada na escola, no 3º trimestre deste ano.

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