Chris Dias (*)
Escrever é, para mim, um encontro com algo que ficou pelo caminho e precisa ser revisto. É feito uma conversa que nunca tive, uma ideia que não pôde ser expressa. Um encontro com um tempo que não existe mais ou lugar que nunca pode ser visitado. Cada livro guarda um punhado de memória, história, afetos e pensamentos que me levaram ao instante de escrevê-los. Depois de publicados já não sei mais nada, até ter a chance de encontrar leitores.
Quando entrei na Escola Projeto e enxerguei o quanto o estudo do meu trabalho gerou novas vivências, tive que parar um tempinho pra entender o que estava acontecendo.


Meus livros foram reescritos ali. Foram transformados em brincadeiras, obras de arte, espaços temáticos e criaram novos caminhos para dentro e fora das histórias que inicialmente guardavam.
Estudar uma autora é buscar a semente do seu trabalho, do seu fazer literário, do seu motivo de falar. Essa é a primeira parte, a motivação. Desse encontro de almas, que considero o momento em que o leitor entra no processo da escrita proposta pela escritora, os dois caminhos cruzam e a mágica acontece.
Aquela semente original, contida no livro lido, é plantada em outro terreno, com outro adubo, regado de outra forma e não pertence mais a mim, nasce nova no corpo do leitor que cria, inventa, faz nascer um novo texto, com novo formato e um conteúdo original, genuíno, verdadeiro.
Ler é reescrever o que se leu. Isso disse Paulo Feire explicando o processo de leitura e apropriação de um texto. Estudar uma autora é propor a escrita de novos e incontáveis textos, momento em que, o que foi lido, encontra novas histórias contidas em cada leitor e assim um espiral de construção de sentido se forma e já não se sabe quando começa nem aonde pode chegar.


Aquele encontro que tenho com meu passado quando escrevo, o leitor tem consigo quando lê. E juntos fazemos uma viagem de entendimento e autodescoberta.
Entrar na escola, naquela manhã de maio, foi entrar num quintal encantado, onde a minha vida toda estava ali, em cada trabalho, em cada mãozinha oculta no papel picado, na pintura, na dobradura transformada em passarinho. Foi reencontrar os motivos que me tornam escritora. Caminhar naqueles corredores, entre as histórias e suas motivações antes de nascerem, foi andar dentro de mim.

Seremos invencíveis enquanto as histórias regarem e forem regadas por tanto afeto. Meu cesto está pleno de alegrias colhidas nesse quintal-mundo em que a escola se transformou. Estamos prontos para mandar a violência e todo o mal pra fora daqui, como diz a canção do Gilberto Gil que deu nome a esse texto.
(*) Autora estudada por todas as turmas da escola neste 1º trimestre de 2026, convidada do Projeto “Encontro com o(a) Escritor(a)”.
